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POSSO FALAR MAL DO MEU IRMÃO NO FACEBOOK?

Parece-me que nenhum mandamento do Senhor é mais quebrado no Facebook do que o nono: “não dirás falso testemunho contra teu próximo”. Acredito que isso se dá por dois motivos, (1) o ambiente propício ao anonimato ou falta de responsabilidade do que se diz; (2) interpretação errada sobre o nono mandamento. Neste post vou me deter no segundo motivo, tendo em vista, que o primeiro só será um motivo, quando o segundo já existe.


O que, portanto, significa “falso testemunho” e suas implicações?


“Falso testemunho” pertence, inicialmente, a um contexto judicial1, onde uma testemunha é levada ao tribunal para trazer luz aos fatos ocorridos. Por implicação, diz respeito a todo testemunho/juízo que é feito, seja num tribunal ou não, tendo em vista que todos nós estamos sempre diante do juiz (Coram Deo). Este mandamento trata da preservação de duas coisas: a verdade e a reputação do outro. Neste sentido, no facebook, o cuidado de pronunciamentos contra o outros deveria ser dobrado, tendo em vista que é um ambiente público do qual dificilmente temos controle do alcance.


Ainda que pensemos estar certos sobre determinado acontecimento, por conta de nossa limitação humana, podemos não ter conhecimento de toda informação necessária para emitirmos um juízo sobre alguém.


Ainda assim, vale lembrar da interpretação dos teólogos de Westminster quando escreveram o Catecismo Maior de Westminster ao dizerem que fazia parte das proibições do nono mandamento:


“tudo quanto prejudica a verdade e a boa reputação de nosso próximo... falar a verdade inoportunamente, ou com malícia, para um fim errôneo... interpretar de maneira má as intenções, palavras e atos de outrem... negar os dons e as graças de Deus... descobrir desnecessariamente as fraquezas de outrem e levantar boatos falsos... esforçar-se ou desejar o prejuízo de alguém; regozijar-se na desgraça ou na infâmia de alguém; a inveja ou tristeza pelo crédito merecido de outros... praticar ou não evitar aquelas coisas que trazem má fama, ou não impedir, em outras pessoas, tais coisas, até onde pudermos. (CMW P. 145)


Isso é um chamado a observarmos não só o conteúdo, mas as intenções de nossos juízos, pois muitas vezes usamos a verdade como um meio de humilhar, ridicularizar e prejudicar os outros, quando poderíamos ter feito de outra forma. Que sejamos cuidadosos em nossos posts e comentários nesta rede social.


1Nota exegética: שָׁקֵר (šāqar), que qualifica o עֵד (ʿeḏ - testemunha), significa “mentiroso, enganador, falso, fraudulento”. עֵד שָׁקֵר ocorre no AT em referência ao testemunho mentiroso num contexto judicial em Dt 19.18; Sl 27.12 e Pv 6.19. Durham, J. I. Vol. 3: Word Biblical Commentary: Exodus. Word Biblical Commentary, 2002, p. 296.



Autor: Ronaldo Vasconscelos

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