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PORQUE NOSSO FILHO NÃO TEM UM SMARTPHONE

Nosso filho quer um smartphone com uma conta no Instagram.


Tem 12 anos. Está no oitavo ano. Ele quer enviar mensagens de texto para seus amigos, enviar fotos e conversar nas tardes e noites.


Sua mãe e eu dissemos "não".


Nós abrimos uma conta no Instagram no telefone da minha esposa que ele pode usar para postar uma foto ocasional ou, sob a nossa supervisão, ver o que seus amigos estão fazendo durante o verão. Mas nós estabelecemos o limite para ele ter um telefone nesta idade e todas as contas de mídia social que viriam juntas.


O louco é que nós somos os estranhos. Apenas um punhado de colegas de classe estão sem um telefone.


Eu não estou julgando as decisões que outros pais tomam, contanto que eles estejam informados e envolvidos na vida de seus filhos. Cada criança é diferente. Os pais podem usar o discernimento e chegar a conclusões diferentes sobre este assunto. No entanto, estou confiante de que estamos tomando a decisão certa para nossa família.


Naturalmente, o nosso filho fez a mesma pergunta várias vezes de várias maneiras: Por que não, pai? Por que não, mãe?


A resposta fácil seria: "Há coisas ruins na internet e não queremos que você acesse". Poderíamos falar sobre mensagens adultas e pornografia e todos os perigos potenciais de estar online. Mas eu sei que existem certos filtros e barreiras que impedem esse dilúvio de sujeira. Além disso, o potencial para a tentação sexual futura não é nossa maior preocupação de qualquer maneira.


Não. A verdadeira razão em nosso filho não ter um telefone é porque pensamos que seus anos de ensino médio serão melhores gastos sem um. A resposta que eu dei, repetidamente, é esta: Eu quero que você fique livre dos dramas do ensino médio enquanto você estiver em casa.


Claro, nosso filho acha que o telefone representa um novo degrau na escada, o próximo passo para a liberdade da idade adulta. Pensamos que o telefone, na sua idade, é um passo para trás em direção à escravidão. Ele aprisiona crianças, assim como pode confinar adultos no jogo social de curtidas e comentários e intermináveis ​​comparações.


James K. A. Smith descreve a cena de um adolescente, e que praticamente qualquer adulto poderia se encaixar:


"A adolescente em casa não escapa ao jogo da autoconsciência; Em vez disso, ela está constantemente consciente de estar em exposição – e ela está regularmente consciente das exposições dos outros. Seu feed do Twitter incessantemente a atualiza sobre todas as coisas empolgantes, coisas que ela não está fazendo com os quadris como as meninas "populares"; Seu Facebook atualiza incessantemente com fotos que destacam quão chata é sua existência enquanto vive com os pais. E assim ela é compelida a estar constantemente "on", a "atualizar" e fazer "check-in". A competição pela frieza nunca para. Ela está constantemente consciente de si mesma – e, portanto, incapaz de se perder nos prazeres da solitude: enterrando-se num romance, despejando-se num diário, brincando com formas fantasiosas em um papel de desenho... Cada espaço é uma espécie de câmara de eco visual. Já não somos vistos fazendo alguma coisa; estamos fazendo algo para sermos vistos."


Não há nada errado ou imoral no conteúdo que a adolescente do parágrafo acima possa acessar. Mas algo ainda não está certo sobre toda a cena.


Muitos pais cristãos estão justamente preocupados com o conteúdo que seus filhos podem acessar no telefone. Mas não é apenas o conteúdo que nos molda. É todo o dispositivo e como ele opera, e as suposições sobre o nosso mundo que são contrabandeadas com ele. O smartphone tem aplicativos adaptados em torno de seus próprios desejos, de modo que o telefone diz, o dia todo, todos os dias, "O mundo gira em torno de você."


Em um recente artigo na Comment, Peter Leithart escreve:


"As ferramentas querem ser usadas desta forma e não daquela. Meu telefone "quer" que meus quereres se dirijam em uma determinada direção. Meu telefone me treina a esperar satisfação instantânea dos meus infinitos desejos... Nosso mundo é movimentado por telefones, computadores e tablets para auto-absorção e para um alheamento, um consumo desatento. Meu celular transforma-se em uma cela."


Isso é algo sério. É por isso que eu dediquei o primeiro capítulo de “Essa é a Sua Hora” para o smartphone ("Seu telefone é um mentiroso") e como podemos usar de forma fiel esta ferramenta recém-inventada.


A mídia social promete fazer duas coisas ao mesmo tempo: resolver o anseio humano de "ser conhecido" e o desejo humano de estar "por dentro". A sede de conhecimento remonta ao Jardim do Éden. Queremos conhecer e estar por dentro de tudo, e queremos "ser conhecidos e amados".


No livro, eu chamo isso de "sede dupla" – quando você bebe algo que temporariamente sacia sua necessidade de água, mas tem um ingrediente que cria em você uma sede ainda maior.


Quando você vai ao telefone acreditando no mito de que pode com ele saciar sua sede de conhecimento, você está inundado com informações que fazem-no sentir-se insignificante no quadro maior das coisas. É quando o segundo sonho entra, o desejo de ser conhecido. Agora você vai ao seu telefone a fim de colocar-se à exposição, para publicar selfies e comentários, porque estar presente e online ajuda a lutar contra a sensação de que você é insignificante.


Então, há um aspecto mais profundo nisso tudo. Recriamo-nos online porque nos preocupamos se caso fôssemos verdadeiramente conhecidos, nós não seríamos amados. Será tarefa da nossa geração traçar o caminho no que tange ao uso fiel do smartphone. Como o evangelho molda nossos hábitos no smartphone? Essa é uma questão importante, e é por isso que eu escrevi um capítulo sobre este assunto, e por isso estou animado em ver artigos na Comment, bem como um novo livro de Tony Reinke pressionando-nos a uma reflexão mais profunda sobre os nossos hábitos. Por agora, o simples "não" é melhor para o nosso filho. Mas essa discussão deve levar-nos, como pais que somos, muitas vezes colados aos nossos telefones, a ponderar a respeito de para o quê estamos dizendo “sim”.



Autor: Trevin Wax

Tradutor: Moacir Campos

Texto Original: Why Our Son Doesn’t Have aSmartphone



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