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CONFIA EM MIM OU VOU TE MACHUCAR

Como o convite do evangelho é diferente de "Confie em mim ou eu vou lhe machucar"?


Se você não acredita que o inferno é real, então esta não é uma pergunta séria para você. Se você acredita que o inferno é real, mas não acredita que Deus jamais envia alguém para lá (mas apenas que as pessoas vão lá contra Sua vontade), então ainda não é uma questão séria para você. Mas se você acredita que o inferno é real, e Deus realmente envia pessoas para lá, então esta pergunta precisa de uma resposta ponderada.


Real, Terrível, Punitivo


Eu realmente acredito que o inferno é real e que Deus envia as pessoas para lá. Claro, não temos como saber se o inferno é real, ou se Deus envia as pessoas para lá, a menos que Deus nos revele isso. Ele fez isso, especialmente através de Jesus. Ninguém na Escritura falou mais a respeito do inferno que Jesus. E ninguém falou disso em termos tão terríveis. E ninguém deixou mais claro que era uma punição divina, não apenas uma conseqüência auto-infligida.


Jesus chama isso de "castigo eterno" (Mateus 25:46), "fogo eterno" (Mateus 18.8), "fogo inextinguível" (Mateus 3:12, Marcos 9:43, Lucas 3:17), "lugar de tormento" (Lucas 16:28), "trevas exteriores" (Mateus 8:12; 22:13), "choro e ranger de dentes" (Mateus 13:42, 50; 22:13; 25:30), viver "em angústia" (Lucas 16:24), "onde o verme não morre e o fogo não se apaga" (Marcos 9:48).


E ele ensina que as pessoas não vão para lá voluntariamente; Elas são "lançadas no inferno" por Deus (Lucas 12: 5, Mateus 5:29, 18: 9, Marcos 9:45), "lançadas nas trevas exteriores" (Mateus 8:12; 22:13; 25:30). Deus é o Juiz que faz essas análises. O inferno é uma sentença sobre o mal, não apenas uma sequela do mal. É "julgamento". "Como você vai escapar do julgamento do inferno?" (Mateus 23:33, minha tradução). Portanto, Deus deve ser temido: "Teme aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno" (Mateus 10:28).


Por que as pessoas irão para o inferno?


Às vezes somos ensinados que a ira de Deus vem por causa de vários pecados: "Imoralidade sexual, impureza, paixão, desejo maligno e cobiça... Por causa disso, vem a ira de Deus" (Colossenses 3:6, Efésios 5:5-6, Hebreus 13:4). Ou por derramar "o sangue de seus servos [de Deus]" (Apocalipse 19:2), ou por causa da "injustiça" em geral (Romanos 2:8). 


Mas por detrás desses atos específicos de pecado está a ofensa mais profunda contra Deus e Seu Filho. "A ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade" (Romanos 1:18). "Quem não obedece ao Filho... A ira de Deus permanece nele" (João 3:36). Cristo vem "em meio a chamas flamejantes, infligindo vingança aos que não conhecem a Deus e àqueles que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus" (2 Tessalonicenses 1:8). A ira vem sobre aqueles que "não obedecem a verdade" (Romanos 2:8), "recusam-se a amar a verdade" (2 Tessalonicenses 2:10), e assim "suprimem a verdade" (Romanos 1:18).


Em última análise, portanto, pessoas estão no inferno porque uma ofensa contra alguém infinitamente digno é uma ofensa infinita. Deus é infinitamente digno, e todo pecado é em última instância contra Ele. Desacreditar e degradar e desonrar a Deus é a raiz e a essência de todo pecado. Paulo chama isso de "estar destituído da glória de Deus" (Romanos 3:23), trocar Deus por sua criação (Romanos 1:23) - isto é, preferir algo mais do que preferimos a Deus (Jeremias 2:13), e confiar em nós mesmos mais do que Nele (Romanos 14:23). A raiz de toda a quebra da lei é a hostilidade para com Deus (Romanos 8:7).


Deus é como um marido violento?


Portanto, a pergunta que estamos fazendo não é frívola. Se existe um inferno, e se Deus é quem envia as pessoas para lá, e se a razão pela qual elas vão a ele é uma falha em confiar e amar, e desfrutar e honrar a Deus, como isso é diferente de um marido abusivo que diz, "Beije-me ou eu vou lhe machucar"? Ou um rei obstinado que diz: "Curve-se a mim ou eu vou cortar a sua cabeça"? E, para que ninguém pense que a pergunta é extravagante, lembre-se do Salmo 2:12: "Beijem o Filho, para que ele não se ire, e vocês não sejam destruídos de repente."


Parece-me que uma resposta a esta pergunta toma forma em duas etapas.


Etapa 1: já em apuros


O Deus do evangelho, que requer fé em Cristo (Atos 16:31), e adverte sobre o julgamento (Romanos 2:16), é diferente do marido abusivo e do rei obstinado no sentido de que Deus vem a uma humanidade que já está sob a ira e no corredor da morte aguardando execução (João 3:36, Romanos 5:9 e Efésios 2:3). No evangelho, Ele não diz: "Confie em mim ou você vai ficar em apuros." Ele diz: "Confie em mim, porque você já está em apuros, e eu tenho uma maneira de salvá-lo."


Com efeito, ele diz: "Estou enviando meu Filho para morrer no lugar daqueles que já estão condenados a morrer. Eu não o ‘pouparei’.” (Romanos 8:32). Eu o entregarei ao pior sofrimento, para que você possa ter um Salvador e viver. E se você não pode ver o que isso significa, deixe-me torná-lo explícito. Significa que eu te amo." "Deus demonstra seu amor por nós: enquanto ainda éramos pecadores, Cristo morreu em nosso favor" (Romanos 5:8).


Nenhum marido abusivo ou rei obstinado pode dizer isso. Eles têm uma mentalidade oposta. Eles agem para obter, não para dar. Eles assim procedem por necessidade, não por plenitude. São uma bomba de sucção, não uma fonte satisfatória. Suas exigências não são como o evangelho. Eles estão apenas ameaçando causar dor, não oferecendo-se para resgatar da dor. Eles estão prontos para lhe machucar, não planejando ser feridos para lhe poupar. Mas no evangelho - mesmo na exigência do evangelho - Deus está dando a si mesmo para lhe salvar de ser ferido.


Essa é a primeira diferença entre o evangelho e "Acredita em mim ou vou te machucar."


Mas essa primeira etapa da resposta não é a última palavra. Ele deixa sem resposta a pergunta: Como a humanidade se achou em apuros, em primeiro lugar? A resposta é que Deus condenou a humanidade ao inferno por causa de seu pecado. E o pecado é contra Deus. E, portanto, a questão permanece. Quando os seres humanos primeiro se encontraram sob a ira de Deus, como isso foi diferente de "Confia em mim ou eu vou te machucar"?


Etapa 2: amabilidade antes da ameaça


Enquanto Deus definitivamente adverte as pessoas que a sentença judicial de sofrimento lhes espera se eles o desprezam como seu tesouro, Ele não conduz com ameaça, mas com cortesia. E isso é mais do que uma questão de sequência. Tem a ver com a própria essência do que Ele exige.


O marido abusivo e o rei obstinado exigem ações: um beijo e um ato de reverência. Conseqüentemente, podem conduzir com ameaças, porque um beijo e o ato de se curvar podem ser feitos sem nenhuma afeição, mas somente por causa do medo. As ameaças podem restringir as ações corporais, mas não podem restringir belas afeições.


Mas Deus exige afeições em primeiro lugar, não ações. As ações só têm um significado moral se elas fluem de um coração de afeição por Deus. Os “beijos de Judas” não honram a Cristo. Curvar-se diante de um rei, enquanto seu coração está rendido a outro, pode ser o suficiente na Terra. Mas está muito aquém do que Deus exige. Não é uma coincidência quando Jesus diz: "Este povo me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim" (Mateus 15:8).


Louvar ou morrer?


Por isso, Jesus não lidera com o lema: "Louvem-me ou morrerão". Ele realmente diz: "Quem ama a seu pai ou a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim" e "perdê-la-á [sua vida]". (Mateus 10:37,39). Mas essa advertência não é o primeiro ou o principal motivo para amá-lo.


Na verdade, o ponto-chave aqui é que as ameaças e advertências não podem funcionar como motivos diretos para o que Deus exige. Para ser verdadeiro, ele realmente exige certos comportamentos. Mas por detrás de todo comportamento que Deus ordena (seja "não matar" seja "praticar hospitalidade") é um comando implícito, e muitas vezes explícito, para disposições do coração que fazem da hospitalidade e do não-matar coisas moralmente belas aos olhos de Deus. Por exemplo, Jesus disse que a verdadeira questão por trás do assassinato é a ira (Mateus 5: 21-22), e Pedro disse que toda hospitalidade deveria ser "sem murmuração" (1 Pedro 4:9). As afeições do coração são sempre decisivas se a ação corporal é bela aos olhos de Deus.


Desde o início, as afeições mais básicas que Deus exigiu dos seres humanos eram que Ele fosse temido (Provérbios 1:7), amado (Deuteronômio 6:5), apreciado (Salmos 37:4), honrado (Romanos 1:21), e, dado isso, obedecido em todas as coisas (Deuteronômio 4:40).


Ameaças não podem despertar a confiança diretamente


Mas isso significa que ameaçar com dor pode nunca funcionar como um motivo direto para fazer o que Deus exige. Primeiro, porque o que Ele exige, por detrás de todas as outras exigências, é confiança, amor, alegria e honra. Segundo, porque nenhuma delas pode ser despertada ou sustentada diretamente por ameaças de punição.


Tente. Se você não sentir confiança em alguém, e ele colocar uma arma em sua cabeça e dizer: "Se você não confiar mim, vou matá-lo", o que acontece? Você não pode fazer o sentimento de confiança surgir em seu coração. Você pode forçar-se a agir de certas maneiras que podem transparecer confiança. Mas o verdadeiro afeto da confiança sincera não pode ser coagido por ameaças. Nem o amor, nem a alegria, nem a honra. Essa simplesmente não é a maneira como o coração humano funciona.


O que quero dizer com o fato de essas afeições não poderem ser despertadas ou sustentadas diretamente por ameaças é que as ameaças e advertências têm um papel indireto a desempenhar. Caso contrário, Deus não as teria dado a nós, e Ele o fez. "Beijem o Filho, para que ele não se ire, e vocês não sejam destruídos de repente." (Salmo 2:12). "Eu os advirto... aqueles que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus" (Gálatas 5:21).


Mas essas advertências nas Escrituras não funcionam diretamente em nossas afeições de confiança e amor, e alegria e honra. Em vez disso, elas nos despertam para o fato de que nossos corações são tão rebeldes e tão merecedores de punição que precisamos desesperadamente da misericórdia de Deus para nos tornar um novo tipo de pessoa. Desta forma, as ameaças nos convencem de que o problema não está em Deus, mas em nós. Nós somos defeituosos e duros e cegos e resistentes. Portanto, não podemos ver ou sentir as verdadeiras belezas das múltiplas perfeições de Deus. Nossas afeições não estão vivas para Deus como deveriam estar. Portanto, Deus usa advertências e ameaças para nos acordar de nossa morte e dureza e cegueira. Ele nos conduz à cruz e nos mostra "as inescrutáveis ​​riquezas de Cristo" (Efésios 3:8). É aí que as afeições de confiança e amor, alegria e honra são nutridas.


E o homem antes da queda? Como funcionavam as advertências nessa época? Havia apenas uma: "Não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres certamente morrerás" (Gênesis 2:17). A função não era despertar Adão da morte, mas sim permanecer como uma sentinela contra confiar em si mais do que em Deus. Não a advertência sobre uma árvore, mas a graciosidade de milhares, era o plano de Deus para ser amado.


A graciosidade da recompensa e do resgate


Na busca de nossa confiança e amor e prazer e honra, Deus lidera com graciosidade, não advertências. Com esplendores que despertam alegria, não ameaças que despertam medo.


Se pensarmos na humanidade antes de sua condenação, vemos Deus liderando com o dom gratuito da recompensa. "Então o Senhor Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boa para alimento", e disse: "Coma livremente de qualquer árvore do jardim" (Gênesis 2:9,16). Apenas uma foi proibida.


E se pensarmos na humanidade depois de sua condenação, vemos Deus liderando com o dom gratuito do resgate através do dom de Seu Filho. "Deus enviou o seu Filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele" (João 3:17). Ele não conduz com a ameaça da ira, mas com a mensagem de resgate. "Como agora fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por meio dele, seremos salvos da ira de Deus!" (Romanos 5:9).


A obscuridade do "confia em mim ou vou te machucar" 


Concluo, portanto, que o evangelho não é expresso, mas obscurecido, com as palavras: "Confia em mim ou vou te machucar." 


1) As palavras evocam imagens de um marido abusivo ou um rei obstinado e, assim, obscurecem a verdade que Deus age de Sua plenitude para o nosso bem, não por necessidade de nossa afirmação. 


2) Elas obscurecem o fato de que já estamos feridos e já sob a sentença de sermos mais afligidos, e Deus vem a nós nessa condição com palavras de resgate como um presente comprado com sangue. 


3) Essas palavras obscurecem o fato de que a essência do que Deus exige de nós (confiança, amor, alegria e honra) não pode ser despertada ou sustentada diretamente por ameaças. Deus nos fez de modo que é psicologicamente impossível que as afeições mais satisfatórias sejam diretamente produzidas por ameaças.


Ele nos fez para glorificá-lo, desfrutando-o como o supremo tesouro do universo. Esse prazer é o transbordar de nossos corações. É uma resposta espontânea à glória de suas perfeições incomensuráveis, ou não é nada. Pela sua própria natureza, e pelo desígnio de Deus, ela não pode ser coagida.



Autor: John Piper

Texto Original: Trust Me or I Will Hurt You

Tradução: Moacir Campos



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