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PREPARAI-LHE LUGAR

A época do Advento está começando outra vez. Advento – uma época tão cheia de tradição, tão cheia de memória, tão cheia de lendas. E uma temporada tão cheia, muitas vezes mais que cheia, repleta de atividades cansativas para manter tradições, criar lembranças e recordar lendas.


E quando o Advento começa, Lucas vem até nós, como uma espécie de espírito santo de um natal passado, pedindo que deixemos de lado por enquanto nossas listas de natal, deixemos a árvore mal podada, interrompamos o filme de férias, sequemos nossas mãos de lavar as panelas da ceia, e o sigamos. E assim que o fazemos, tudo o que vemos começa a girar em direção a uma escuridão desconhecida.


De repente, nós nos encontramos de frente ao que de alguma forma sabemos se tratar de um antigo e pequeno povoado palestino em uma singular noite estrelada. As formas e sombras dos edifícios parecem estranhos. Os ruídos humanos e animais soam estranhos. Os aromas enfumaçados de fogo, alimentos, óleo queimado e estrume cheiram estranho. A total ausência de iluminação elétrica é estranha. Olhamos o nosso smartphone. Está sem bateria.


Visão desolada do Advento


Lucas nos leva para além do povoado a descer por um caminho rochoso, escuro e tortuoso até um lugar ignorado e ignóbil, onde de repente temos uma visão surpreendentemente perturbadora. A menos de três metros de distância, dormindo no chão, perto de uma pequena fogueira agora em cinzas, está uma camponesa. Ela tem um pouco de palha em seus longos, bagunçados, cabelos escuros, e está envolta em casacos e um cobertor sujo. Um olhar de fração de segundos nos diz o quão difícil esta noite foi para ela. E ela, tão jovem.


Ainda mais angustiante, vemos ao lado dela um pequeno, rústico, sujo cocho de feno que abriga um recém-nascido adormecido, embrulhado firmemente em tecidos sem higiene, manchados de sangue.


Damos alguns passos curiosos para a frente. Conhecemos essa criança, e conhecemos essa garota. Mas a cena é estranha para nós. Não se parece em nada com as cenas da manjedoura e com os livros ilustrados de nossa infância. Nossas tradições do Advento não nos prepararam para a realidade terrena do verdadeiro Advento.


Maria não está serena. Ela está cansada até os ossos. E nenhum brilho divino e celestial emana da criança. Ela nem é especialmente bela (Isaías 53:2). Na verdade, não há nada sobre essa criança que sugira o mistério insondável que paira sobre quem ela é. Desanimamo-nos ao perceber que, não o tivéssemos já conhecido, sequer o teríamos reconhecido.


Esta cena, o verdadeiro Natal, não tem nada do sentimento do Natal que conhecemos. Ela tem todo o sentimento de desabrigados, indesejados, desesperados – mais como uma cena que encontraríamos debaixo de uma ponte do que debaixo da nossa árvore de Natal. E nós somos atingidos com o choque de uma verdade que já conhecíamos desde muito antes: Esta menina acaba de dar à luz um bebê – O Bebê – em um pasto!


Nossa resposta automática é piedade e tristeza. Esta pobre menina e seu bebê! Conhecemos esta história, mas quando a vemos como realmente foi, ela parece tão errada... Nosso impulso é fazer algo para ajudá-los. Olhamos com incredulidade para Lucas. Ele, olhando calmamente da criança para nós, diz serenamente: "Não havia lugar para eles na estalagem" (Lucas 2:7). Nenhum lugar? Nenhum lugar além de um campo para o Criador do mundo? A incongruência cósmica nos atordoa.


“Certamente podemos encontrar espaço em algum lugar!", Respondemos. – “Podem?” – Lucas retruca. Então ele se vira e começa a voltar pelo caminho.


Olhamos para trás para a menina e para a criança, ao mesmo tempo em que a escuridão palestina começa a se esvair com uma luz familiar.


Preparai-lhe Lugar


De repente, nos encontramos em pé, onde Lucas nos tinha encontrado. Há as listas de Natal, a árvore mal podada, o filme de férias pausado, e as panelas na pia. O estresse familiar da agitada e explosiva agenda das atividades do Advento toma forma novamente.


Mas, em nossas mentes, está a imagem patética da mãe e da criança santa e desamparada. Agitada e abarrotada, Belém não tinha espaço para o advento de Jesus. E ecoando em nossos ouvidos vem as nossas próprias palavras, "Certamente podemos encontrar espaço em algum lugar!"


Nós podemos?


O verdadeiro Natal não era em nada parecido como o Natal que conhecemos, com suas tradições, lembranças e lendas. Foi um momento desesperado que ocorreu por uma razão desesperada.


O Verbo se fez carne (João 1:14) para que o Verbo pudesse tornar-se pecado para nós pecadores condenados, e morrer por nós para que fôssemos feitos justos nele (2 Coríntios 5:21). Ele nasceu fora de um povoado e morreu fora de uma cidade. "Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dele, contudo o mundo não o conheceu" (João 1:10).


À medida que a época do Advento começa novamente, lembre-se do único detalhe que o Espírito Santo, que inspirou os escritos de Lucas, decidiu nos fornecer sobre o nascimento real de Jesus: Maria teve que colocá-lo em uma manjedoura porque não havia espaço para eles na pousada.


Não é menos irônico que Jesus possa estar na periferia de nossas ocupadas atividades na época do Advento do que ele, o Filho de Davi, encontrar-se deitado em uma manjedoura em um campo na periferia da cidade de Davi.


Portanto, enquanto planejamos nossas festas de fim de ano, "cada coração preparai-lhe lugar". Certamente podemos encontrar espaço em algum lugar.



Autor: Jon Bloom

Texto Original: Prepare Him Room

Tradução: Moacir Campos




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