Artigos

O QUE MUDA QUANDO EU ORO?

Parece-me que esta é uma questão que confunde tanto cristãos que estão iniciando a caminhada como cristão mais velhos. O problema, acredito, seja a grande influência das religiões idólatras que tem como norma de seus cultos a barganha com o seu deus através de ofertas e sacrifícios. Mas, afinal, o que a Bíblia nos revela sobre oração, especialmente sobre quais os seus efeitos?


A ORAÇÃO NÃO MUDA O SER DE DEUS


Deus é imutável, não há nEle variação. Ele é, da forma que é, eternamente. Nada pode alterar este status. A oração não deixará Deus mais sábio sobre a nossa situação, nem provocará mudança na forma ou sentimento que Deus nos trata. (Tg 1.17; Ml 3.6)


A ORAÇÃO NÃO MUDA OS PLANOS DE DEUS


Os planos de Deus estão atrelados à sua vontade soberana, ele não planeja sem que “antes” deseje. Os seus planos, também chamados de Decretos, por ser Ele o Rei do Universo, são inalterados tal como sua vontade é inalterada, pois faz parte do seu Ser. (Ef 1.11; Sl 33.11; Hb 6.17)


E OS TEXTOS QUE PARECEM DIZER QUE A ORAÇÃO MUDOU A VONTADE DE DEUS?


É necessário, primeiramente, ter em mente um princípio elementar da interpretação bíblica: a Bíblia interpreta a si mesma. Esse princípio tem como pressuposto que a Bíblia foi escrita por diversos autores, mas o Autor de fato é Deus, e ele não se contradiz ou confunde.


Alguns teólogos, especialmente influenciados pela leitura crítica e liberal das Escrituras, têm certa dificuldade com este princípio, e procuraram interpretar os textos à parte deste contexto canônico. Não é meu objetivo argumentar este ponto, apenas afirmar que este é um princípio da própria Escritura (2 Pe 1.20-21).


A INTERCESSÃO DE ABRAÃO


Em Gn 18.22-33 Abraão, após uma gostosa refeição com Deus e tomar conhecimento de que Ele estaria observando a cidade de Sodoma, intercede pelos possíveis justos que estariam naquela cidade. Nesta intercessão ele tenta prever o número de justos que ali habitariam e quantos destes seriam suficientes para que a cidade não fosse destruída. Os números vão de 50 a 10 (metade de uma cidade pequena até 10% desta cidade). A questão que se estabelece é se a cada nova proposta de Abraão estaria Deus alterando seu critério para julgar a cidade. Certamente este não é o ponto da passagem. No fim da história saberemos que não havia os tais 10 justos, e a cidade foi destruída. Também devemos lembrar que o juízo para com Sodoma e Gomorra já estava incluído nos planos de Deus de entregar as terras de Canaã a Abraão e sua descendência. Portanto, para que Deus cumprisse sua promessa da terra prometida, Sodoma e Gomorra seriam destruídas. O objetivo da intercessão de Abraão, longe de alterar os planos de Deus, aponta para este personagem ser um tipo de Cristo, que intercede pelos justos, porém de poder inferior, tendo em vista que Cristo salva todos aqueles por quem ele intercede.


A INTERCESSÃO DE MOISÉS


Êx 32.14 afirma que, após a intercessão de Moisés, Deus se arrependeu do mal que faria com o povo de Israel após terem adorado ao bezerro de Ouro. Será que esta oração teria alterado os planos divinos, e Deus se arrependido, como os homens se arrependem?


A palavra arrependimento, quando usada a Deus, deve ser interpretada com muito cuidado. O seu uso está ligado a uma figura de linguagem, antropopatia, dar sentimentos humanos a alguma coisa que não tem. Deus é totalmente distinto da sua criação, não segue as mesmas leis, e nem tem os mesmos sentimentos. Portanto, quando Moisés usou este recurso fez isso no intuito de tornar compreensível, a partir da nossa própria experiência, o sentimento de Deus. Ele se arrepende, ele se entristece, ele se ira, todas essas coisas expressam movimento e formalmente contrariam a imutabilidade do ser de Deus, a menos que sejam expressão adaptadas aos sentimentos humanos, com vistas à comunicação eficaz.


Para assumirmos que Deus arrependeu-se, mudando de ideia, com um homem faz, teríamos de negar todas as verdades claramente estabelecidas nas Escrituras. O princípio interpretativo nos leva a usar estes outros textos, que deixam claro que Deus e sua vontade são inalteradas, como auxílio para compreender este texto mais difícil. Portanto, o sentimento de Deus, ainda que com certa semelhança, não foi um arrependimento humano. Vale lembrar que o juízo de Deus se estabeleceu, ainda que forma mais branda, pois aqueles que adoraram o bezerro morreram no deserto, com apenas algumas exceções.


Mas, então, o que de fato aconteceu? Ora, o próprio teor da intercessão de Moisés nos ajuda a observar que Deus não mudou sua posição. Moisés “lembra” a Deus das suas promessas e dos seus servos, Abraão, Isaque e Jacó. Teria Deus esquecido deles? Certamente que não, Deus não tem problema de memória. O que está acontecendo é Deus usando a oração de Moisés para executar seus planos redentivos e intercessórios pelo seu povo. Tipificando a intercessão perfeita de Cristo. Todas estas coisas já estão nos planos de Deus, não havendo, portanto, uma alteração como alguns poderiam afirmar. A salvação do povo de Israel já fora prometida, e é cumprida na história por meio de atos de muitos dos personagens e instrumentos de Deus.


A INTERCESSÃO DE EZEQUIAS


Outro texto muito usado para defender a ideia de que a oração muda os planos de Deus é a famosa história do rei Ezequias. Ela está relatada em Is 38.1-6. Nesta narrativa dois grandes milagres acontecem para preservação da linhagem davídica no reinado de Judá.


O primeiro milagre é a cura de uma doença mortal que foi acometido o rei Ezequias e o segundo milagre foi o retroceder do sol no relógio real. Difícil imaginar qual dos dois é mais grandioso e maravilhoso. A ressurreição de um moribundo ou a alteração de toda a rota do Universo para sustentar esta palavra. Deus faz um grande milagre para evidenciar ao rei que ele cumpriria a promessa de cura-lo, é até difícil pensar em como alguém pode interpretar neste texto uma quebra da palavra de Deus, portanto, uma mudança.


A dificuldade do texto está na resposta à oração de Ezequias. Deus afirma, através de Isaías, que ouviu a oração do rei e que ele, o Deus de Davi, iria acrescentar 15 anos na vida dele. A chave para compreender o texto está na apresentação de Deus. Ele diz ser o Deus de Davi. O reinado de Davi é tipológico com o reinado de Cristo. Este reinado é eterno. No entanto, Ezequias, descendente de Davi, não tinha filho para continuar a linhagem davídica no reinado de Judá, seu filho Manassés será coroado rei com 12 anos, portanto, nascerá 3 anos após esta profecia. O que está em jogo, portanto, é a continuação desta linguagem da promessa.


Será que Deus esqueceu da promessa que fez a Davi? (Sl 89.35-37). Certamente que não é este o caso. A história de Ezequias trata da fidelidade de Deus a si mesmo, ele mantém sua palavra mesmo para quem está morto. Os dias de Ezequias não foram acrescentados na perspectiva de Deus (Jó 14.5), mas da perspectiva do próprio Ezequias. As palavras do profeta, ordenando que ele se preparasse para morrer, serviu para que este rei se submetesse a vontade de Deus e a sua fidelidade e palavra fosse mantida e evidenciada.


PARA QUÊ ORAR ENTÃO?


R.C. Sproul fala de 4 propósitos da oração:

  • ADORAÇÃO: Reconhecer e declarar quem é Deus e as maravilhas dos seus feitos. (Sl 100)
  • CONFISSÃO: Confessar nossa carência da graça de Deus, a profundidade do nosso pecado e a confiança no perdão em Cristo. (Hb 4.16; 1 Jo 1.9)
  • GRATIDÃO: Agradecer a Deus pelas suas bênçãos, evidenciado um coração grato e que confia no Senhor. (Sl 103. 2; Fp 4.6)
    • INTERCESSÃO: Rogar a Deus pelo seu cuidado conosco e com o próximo. Pedir ao único que tem poder para de fato mudar a nossa vida. (Fp 4.6; Tg 1.5).


O QUE MUDA?

Nós mesmos! Ao orarmos somos transformados pelo Espírito Santo. Ao orarmos nos submetemos a vontade de Deus. Aprendemos a amar a sua vontade e sermos gratos mesmo quando as coisas não acontecem como queremos. De fato, a oração muda, muda tudo, porque tudo deve ser lançado a Deus por meio dos joelhos dobrados em oração.



Autor: Rev. Ronaldo Vasconcelos

Postagem Original: Perfil no Facebook do Autor